A Madeira também é Europa — e a mobilidade tem de o provar
Por Duarte Costa (co-presidente do partido Volt) e Filipe Sousa (deputado na Assembleia da República do partido JPP), que pode ler, na edição online de 22 de janeiro de 2026 do jornal Expresso.
Imagine que, para ir trabalhar, estudar, visitar a família ou tratar de um assunto de saúde, tinha primeiro de adiantar várias centenas de euros — e só meses depois saberia se lhe devolveriam parte do dinheiro? Para muitos madeirenses e porto-santenses, esta não é uma hipótese teórica. É a realidade quotidiana da mobilidade.
Viver numa ilha não pode significar viver com menos direitos. No entanto, quando o acesso a um avião depende da conta bancária e não da cidadania, algo está profundamente errado. A mobilidade deixa de ser um direito e transforma-se num privilégio.
É por isso que o debate sobre o Subsídio Social de Mobilidade não é técnico nem burocrático. É político. E é europeu. Porque a União Europeia assenta num princípio simples, mas exigente: todos os cidadãos devem ter acesso igual às oportunidades, independentemente do território onde vivem. A coesão territorial não é retórica de tratados — é um compromisso concreto com pessoas reais.
Hoje, o modelo aplicado à Madeira e aos Açores continua a falhar nesse compromisso. Ao obrigar os cidadãos a pagar primeiro e a serem reembolsados depois, o sistema penaliza quem tem menos liquidez, agrava desigualdades sociais e transforma a insularidade num obstáculo económico. Acresce a exclusão das ligações interilhas, como se a continuidade territorial terminasse dentro da própria região autónoma.
Este problema não é inevitável. Há alternativas a funcionar noutros pontos da Europa. Há soluções técnicas conhecidas. O que tem faltado é vontade política sustentada e capacidade de projetar esta realidade para o espaço onde muitas decisões estruturais são hoje influenciadas: o plano europeu.
É precisamente nesse contexto que se insere a colaboração entre o JPP e o Volt. Nos dias 23 e 24 de janeiro, Filipe Sousa estará no Parlamento Europeu, em Bruxelas, acompanhado de Duarte Costa e Inês Bravo Figueiredo para reunir com membros da delegação dos eurodeputados do Volt e com a liderança europeia do partido, levando a voz dos madeirenses diretamente aos centros de decisão europeus. Não para pedir exceções, mas para exigir coerência entre os valores europeus e a vida concreta de quem vive nas regiões ultraperiféricas.
O Volt Portugal é um partido europeu com representação no Parlamento Europeu e presença em vários Estados-membros. Colaborar com um movimento como o JPP significa criar a possibilidade de transformar uma reivindicação regional num dossiê
europeu, articular alianças com outros representantes de territórios insulares e ultraperiféricos e pressionar as instituições para soluções alinhadas com os princípios da coesão, da justiça social e da continuidade territorial.
Esta colaboração não é simbólica. É trabalho político concreto. Inclui reuniões com eurodeputados responsáveis por pastas ligadas à mobilidade e à justiça territorial, contactos com redes europeias que trabalham estas matérias e a construção de compromissos políticos públicos do Volt e do JPP relativamente à mobilidade nas regiões ultraperiféricas. A visita inclui também a participação do JPP na Assembleia
Geral do Volt Holanda, um dos maiores encontros do partido na Europa, onde este tema será discutido perante centenas de militantes e eleitos de vários países.
Há aqui uma dimensão que importa sublinhar: tanto o JPP como o Volt nasceram de movimentos de cidadãos que decidiram não esperar que a política mudasse sozinha. Partilham uma génese cívica, uma proximidade às pessoas e uma recusa em aceitar injustiças e ineficiências como “fatalidades”. Esta convergência não apaga identidades
nem dilui prioridades regionais e europeias — pelo contrário, amplifica-as.
Para o leitor, especialmente para quem vive fora das ilhas, esta discussão pode parecer distante. Mas não é. Uma Europa que aceita que milhões de cidadãos enfrentem obstáculos estruturais à mobilidade é uma Europa que fragiliza o seu próprio projeto, numa altura que ele mais precisa de estar unido. Hoje são as ilhas; amanhã pode ser a Gronelândia ou outros territórios esquecidos.
A Madeira não pede privilégios. Pede igualdade. Pede que a Europa funcione da mesma forma para quem vive no Funchal, no Porto Santo, em Lisboa ou em Amesterdão. Pede que o direito de circular, trabalhar e viver plenamente não dependa da geografia nem da capacidade de adiantar dinheiro.
A mobilidade é um direito fundador da cidadania europeia. Torná-la efetiva nas regiões ultraperiféricas é um teste à credibilidade da União — e também à capacidade dos partidos de trabalharem juntos além-fronteiras para resolver problemas reais.
É esse teste que estamos a fazer. E é esse o caminho que vale a pena percorrer e para o qual convidamos todos para se juntarem ao Volt e ao JPP, por uma nova geração de políticos.