O Alentejo não se esconde atrás de um biombo — mas os números não mentem
(Artigo publicado na edição de 14 de março de 2026 do jornal A Sul)
Li com atenção a crónica de Henrique Raposo no Expresso de 4 de Março, intitulada "As musiquinhas alentejanas que escondem o Alentejo atrás do biombo". Confesso que terminei a leitura dividido: entre o reconhecimento de que há problemas reais e graves que merecem discussão pública, e a profunda infelicidade do enquadramento escolhido para os abordar.
Comecemos pela música, já que é por aí que o autor abre o seu texto. E comecemos com uma ironia que a realidade se encarregou de servir: ontem à noite, poucas horas antes de eu escrever estas linhas, os Bandidos do Cante — cinco amigos de Beja que cresceram a cantar cante alentejano — venceram o Festival da Canção com "Rosa" e vão representar Portugal na Eurovisão, em Viena, em maio. Nas suas primeiras palavras após a vitória, disseram que os avós deviam estar orgulhosos, porque foram eles que lhes ensinaram o cante. E prometeram levar o Alentejo aos quatro cantos do mundo. Será isto uma "musiquinha" de algoritmo feita para agradar a lisboetas?
Chamar "musiquinhas" à produção musical alentejana contemporânea é, no mínimo, depreciativo. É verdade que nem tudo o que se produz com sotaque alentejano é obra-prima — como em qualquer género musical, há fórmula e há criação genuína. Mas reduzir o fenómeno a uma conspiração de algoritmos concebidos para agradar a lisboetas é profundamente injusto para artistas que trabalham num mercado difícil, competitivo e que raramente recompensa quem vem de fora dos grandes centros. Ver grupos e artistas alentejanos a conseguirem espaço nas rádios, nos festivais e nas plataformas digitais é, antes de mais, uma vitória.Uma vitória de talento, de persistência e de identidade cultural numa indústria que tende a esmagar quem não se encaixa nos moldes dominantes.
Sim, é verdade que "tudo o que for alentejano vende" — desde que seja produto de qualidade. E é isso que estes artistas estão a demonstrar:que há público para a autenticidade, para as sonoridades da nossa terra, para as histórias contadas com a cadência que é nossa. O Cante Alentejano foi reconhecido como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Os Bandidos do Cante vão agora levá-lo à Eurovisão. A música alentejana, nas suas diversas formas, não é um biombo — é uma ponte entre gerações, entre o rural e o urbano, entre a tradição e a contemporaneidade. Desprezá-la é desprezar uma das poucas forças culturais vivas que o Alentejo ainda consegue projetar para fora de si.
Dito isto — e aqui está a minha divisão — os problemas que Henrique Raposo enumera existem. E são graves. Seria intelectualmente desonesto negá-lo ou minimizá-lo. Só que a forma de os combater não é atirando os artistas alentejanos para a fogueira.
Os números são frios e implacáveis.
Segundo o estudo mais recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre pobreza monetária em Portugal, baseado nos dados do INE para 2024, o Alentejo é hoje a região com a maior incidência de pobreza do país, com uma taxa de 17,9%. E o dado mais preocupante: enquanto as restantes regiões registaram uma redução significativa das taxas de pobreza — a diferença entre a região mais pobre e a menos pobre caiu de 11,3 para 5,7 pontos percentuais —, no Alentejo a pobreza cresceu no último período. Não estamos a falar de estagnação. Estamos a falar de retrocesso, num contexto nacional de melhoria generalizada.
Na saúde mental, o panorama é igualmente sombrio. A investigação científica publicada no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, analisando dados entre 2007 e 2014, identificou o Alentejo como a região com a mortalidade por suicídio mais elevada de Portugal, com uma taxa de 12,8 por cem mil habitantes. Estudos mais recentes, publicados em 2024 na revista Sociológico, confirmam que esta tendência se mantém: na população com mais de 65 anos, a taxa no Alentejo (48,9 por cem mil habitantes em 2019) é quase o triplo da média do continente. A investigação aponta para um padrão associado ao isolamento, ao envelhecimento da população e à privação sócio-económica. Como notou o Público em maio de 2025, o suicídio continua a ser um fenómeno particularmente significativo no Alentejo e a taxa nacional permanece praticamente inalterada ano após ano.
Quanto à questão do racismo e discriminação, importa ser rigoroso. Não encontrei dados regionais específicos e suficientemente fiáveis para o Alentejo que permitam fazer afirmações categóricas. Mas aquilo que sabemos é preocupante: o inquérito ICOT do INE (2023) revela que mais de 1,2 milhões de pessoas já sofreram discriminação em Portugal, e a exploração laboral de trabalhadores imigrantes na agricultura intensiva alentejana — amplamente documentada em Odemira, Beja e concelhos limítrofes — configura algumas das mais graves violações de direitos humanos registadas no país nas últimas décadas. Os peritos da Comissão Europeia contra o Racismo e Intolerância do Conselho da Europa (CECRI), no seu relatório de 2025, manifestou alarme com o aumento do discurso de ódio em Portugal. Não podemos fingir que estas questões não têm particular expressão numa região onde milhares de trabalhadores estrangeiros vivem em condições próximas de trabalho forçado.
E depois há o radicalismo político. Basta olhar para o mapa das últimas eleições legislativas. Nas legislativas de 2024, o Chega conquistou vitórias em concelhos do Alentejo e do sul do país que historicamente pertenciam à esquerda. Nas legislativas de 2025, Beja —bastião da esquerda desde as primeiras eleições livres — virou à direita e foi conquistado pelo Chega. Em Évora, o PS resistiu por pouco mais de dois mil votos. Por todo o Alentejo interior, a mancha azul-escura do Chega expandiu-se significativamente.
Compreendo a frustração que está por detrás destes votos. Décadas de abandono político produziram resultados: serviços públicos desmantelados, acessos rodoviários e ferroviários insuficientes, falta de oportunidades para os jovens, um tecido económico frágil e dependente. Quando as pessoas sentem que foram esquecidas, votam em quem promete rutura — mesmo que essa rutura não ofereça soluções concretas, apenas ódio e bodes expiatórios. É um fenómeno europeu, mas no Alentejo tem um terreno particularmente fértil precisamente por causa do abandono de que a região tem sido vítima.
O que me separa de Henrique Raposo não é o diagnóstico — é o método e a proposta. O cronista identifica os sintomas, mas a sua receita resume-se a culpar os músicos por cantarem canções luminosas enquanto a região sofre. Como se a música tivesse a obrigação de ser necrológio. Como se a cultura só fosse legítima quando espelha tragédia.
A resposta aos problemas do Alentejo não está em calar as canções. Está em políticas concretas, pragmáticas e baseadas em evidências, a forma séria de fazer política. Investimento em saúde mental com equipas comunitárias no terreno, como propõem vários programas autárquicos e o próprio Plano de Recuperação e Resiliência; reforço dos cuidados de saúde primários nas zonas de maior isolamento; uma estratégia de combate à pobreza que reconheça as especificidades regionais; a regionalização como instrumento de descentralização de poder e recursos, permitindo que o Alentejo tenha finalmente voz nas decisões que o afetam, em vez de depender de quem governa de longe e visita de longe; investimento em ferrovia e mobilidade que quebre o isolamento físico; fiscalização laboral efetiva na agricultura intensiva; e uma política de habitação digna que não empurre as pessoas para a margem. São estas as respostas que devemos exigir — não crónicas que trocam o diagnóstico pelo desprezo.
O Alentejo não precisa de "musiquinhas" para se esconder — como bem escreveu o jornal O Alentejo em resposta a esta mesma crónica. Mas também não precisa de crónicas que reduzam uma região inteira ao catálogo das suas desgraças. Precisa de ser tratado como o que é: um território complexo, com problemas sérios e documentados, mas também com gente que canta, que cria, que resiste e que merece mais do que condescendência de quem observa de longe.
Os números são reais. Os estudos são fiáveis. As referências que aqui cito são verificáveis. Estes problemas existem e têm de ter solução. Não podemos ter uma região deixada para trás nestes aspetos — nem podemos aceitar que a denúncia legítima venha embalada no desprezo por quem, apesar de tudo, ainda encontra motivos para cantar.
Pedro Pessoa, 14/03/2026